terça-feira, 11 de agosto de 2026

Ele vivia nas rádios de Teresina, principalmente, na Rádio Clube AM 700Kh

 CABO LOPES e os Anos Dourados da Noite Teresinense

Quando se trata da noite teresinense nos anos 70, 80 e 90, Francisco Lopes da Silva, o Cabo Lopes, é dessas figuras que desafiam a própria biografia. Seu nome destacou-se nos bastidores da produção de eventos, festas e shows musicais em Teresina, sendo um dos nomes mais populares que moldaram a movimentação da cena cultural e da noite teresinense. Junto a outros nomes memoráveis da época (como Magalhães Ribeiro — o "Magal" —, Luiz Costa e o empresário Pinga), construiu a era de ouro da vida noturna e dos grandes espetáculos musicais de entretenimento na cidade e região.

A atuação de empresários produtores como Cabo Lopes no cenário cultural dos anos 70, 80 e 90, em Teresina, coincide com uma época vibrante na capital: era um período em que os shows e festas eram marcados pela transição de grandes espetáculos de MPB e música romântica nacional para o início da explosão de ritmos regionais. Era o auge de casas noturnas e clubes históricos de Teresina, como a Aquarius, Doce Vida (Dolce Vita), Matrinxã e Havaí Dance, onde a juventude se reunia e muitos dos eventos assinados por esses produtores aconteciam.

Não é à toa que, até os dias de hoje, o nome do Cabo Lopes é frequentemente lembrado com nostalgia em rodas de conversa e grupos de resgate histórico sobre o passado de Teresina, simbolizando uma época em que fazer eventos exigia muita ousadia, paixão e criatividade.

Há quem diga que, no início dos anos 70, ele cometeu a audácia de trazer o "Rei" Roberto Carlos para cantar no Clube dos Cabos e Soldados da Polícia Militar. O show entrou para o folclore local não apenas pela música, mas pelo susto provocado pela multidão, que fez o Rei interromper o show às pressas. O que para qualquer empresário produtor seria o fim da carreira, para Lopes virou lenda urbana — daquelas que se espalham e, com o tempo, só o fez crescer.

Lopes tinha o faro apurado para o gosto popular. Em 1978, colocou no palco da sua Churrascaria Taba, no cruzamento da Pedro Freitas com a Rua Porto, um ilustre desconhecido que havia trazido do Maranhão, chamado Raimundo Soldado. O sucesso foi tão grande que Lopes o levou para inaugurar seu Noite Clube Teresinense, no Lourival Parente. Dali para o contrato com a gravadora Sapucaia e o sucesso nacional, foi um pulo. Anos depois, com os ouvidos atentos ao som da Bahia, antes de o Axé Music tomar as ruas com a explosão dos blocos e a energia da pipoca, adotou o Chiclete com Banana, como empresário na região, quando a banda ainda engatinhava em Salvador, até eles se tornarem o gigante que o Brasil conheceu. Se o Piauí aprendeu a correr atrás do trio elétrico, a culpa — ou o mérito — também é dele.

Os cenários daquela época guardam memórias distintas: o Ginásio Verdão era o templo dos grandes shows nacionais sob sua imensa cobertura, enquanto o Noite Clube Teresinense abrigava os bailes e a boemia movida por bandas regionais até o amanhecer. Mas o verdadeiro coração dos negócios batia na Praça Pedro II. De segunda a sexta, pela manhã, a Feira dos Músicos e dos Conjuntos Musicais — fenômeno cultural único que a cidade abrigava — transformava o Centro em um verdadeiro balcão de negócios da música. Era ali que donos de clubes do interior, músicos, técnicos e empresários se reuniam para fechar contratos, negociar datas e planejar festas. Naquele espaço efervescente, cercado por outros grandes produtores, a presença do Cabo Lopes era magnética e de absoluto destaque.

Para os pesquisadores da noite teresinense, Cabo Lopes é um dos empresários e produtores musicais que quebrou o paradigma de que o Piauí não tinha rota para grandes espetáculos nacionais. Ele não era apenas um empresário produtor; era um visionário que operava na base da palavra, do risco financeiro e de uma intuição genial para o que o povo queria ver e dançar.

Aos que acham que sua história virou apenas capítulo de livro ou postagem de grupo de memórias no Facebook, o velho Lobo da noite teresinense sorri de canto. O Cabo Lopes continua em plena atividade. A farda, com aposentadoria, ficou no passado e os megaespetáculos musicais também cederam espaço a novos rumos empresariais, mas o espírito empreendedor permanece intacto, batendo ponto no cotidiano de seus negócios atuais.

P. S (1): No início dos anos 90, a Polícia Militar do Piauí o promoveu a 3º Sargento, mas, para o público e para a história da noite teresinense, ele permaneceu — e sempre será — o eterno Cabo Lopes.

P. S (2): Paralelamente aos shows nacionais trazidos pelos grandes empresários, nas décadas de 70, 80 e 90, a cidade vivia uma efervescência de música autoral independente, que circulava por um circuito vibrante de bares e teatros.

Sobre o Autor deste texto:

A. C. Rocha Sousa é pesquisador, professor, maestro e militar, com formação em História e Música. Sua produção registra a memória, as tradições e os desafios locais, unindo o rigor da pesquisa histórica à sensibilidade da arte musical.

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